Amanheceu. A garrafa está vazia e o mundo, levemente torto — como deve ser.
O peso leve do dia seguinte
Há ressacas que doem no corpo e outras que doem na alma.
As primeiras se curam com café e silêncio; as segundas, talvez, só com perdão.
O curioso é que, em ambos os casos, o vinho tem culpa e inocência ao mesmo tempo.
Ele nunca prometeu felicidade eterna — apenas algumas horas de esquecimento elegante.
Mas quem é que sabe parar quando o mundo começa a parecer gentil?
O vinho é o amigo que te escuta, te entende e depois te entrega às consequências.
E, na manhã seguinte, te olha com o mesmo carinho, como quem diz:
“eu te avisei, mas te amei mesmo assim.”
O lado filosófico da dor de cabeça
A ressaca é o corpo tentando lembrar o que o coração quis esquecer.
É o preço da entrega, a fatura da leveza.
E ainda assim, há algo profundamente humano em acordar com a boca seca e a alma cheia de metáforas.
O bom bebedor não se arrepende — ele contempla.
Senta na varanda, encara o copo d’água como quem encara o passado e pensa:
“valeu cada gole.”
Porque beber é um ato de fé: acreditar que o prazer justifica a consequência.
A elegância do recomeço
Todo domingo é uma segunda em espera.
E talvez por isso o vinho do sábado tenha sempre um gosto mais livre, mais perigoso, mais poético.
Mas o domingo, ah, o domingo é o momento do inventário.
Contar as garrafas, contar as histórias, contar quem ficou e quem já virou lembrança.
E, se sobrou um restinho de tinto no fundo da taça, que seja para brindar o erro.
Porque o erro, quando bem vivido, é um tipo raro de sabedoria.
E o vinho, no fundo, é só isso: uma lição líquida sobre o valor das imperfeições.
Assina este gole de arrependimento sereno
Oinus Quill

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