Beber sozinho não é solidão. É silêncio em estado líquido.
Quando o bar fecha, o vinho fica
Há quem diga que vinho bom só se bebe acompanhado.
Mentira.
Alguns vinhos pedem plateia; outros, pedem silêncio.
Beber sozinho é o tipo de honestidade que poucas pessoas suportam, porque o vinho, quando não há conversa, fala demais.
No primeiro gole, ele apenas observa.
No segundo, começa a fazer perguntas.
No terceiro, devolve as respostas que você fingia não querer.
É aí que o vinho mostra sua função mais antiga: traduzir aquilo que o pensamento embriagado tenta dizer, mas a boca só suspira.
O copo como confessionário
A solidão com vinho é diferente da solidão sem ele.
A primeira tem som de piano; a segunda, de geladeira.
Enquanto a taça gira, o tempo desacelera, e até o eco das preocupações fica mais suave.
É um ritual silencioso, quase religioso, de quem aprendeu que não há nada mais humano do que brindar consigo mesmo.
Não há plateia, mas há presença.
E o vinho, paciente, não corrige, não interrompe, não julga.
Só ouve.
Talvez por isso tantos corações partidos prefiram uma garrafa a um amigo — o vinho entende sem precisar de contexto.
Sozinho, mas não solitário
O vinho não preenche o vazio, apenas o torna habitável.
Ele não cura, mas conforta.
Não conserta, mas aquece.
E isso já é mais do que o suficiente em certos dias.
Beber sozinho não é desistir do mundo.
É um intervalo.
Um jeito bonito de lembrar que o silêncio também embriaga, e que há noites que não precisam de companhia — apenas de um gole sincero e uma alma disposta a se escutar.
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Oinus Quill

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